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Introdução

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Perturbação Bipolar




A perturbação bipolar é uma doença do humor, o que significa que os sintomas são perturbações ou anomalias do humor. A depressão major é uma doença mais comum, cujos sintomas são principalmente de humor "deprimido". A doença bipolar envolve episódios de mania e depressão graves. O humor da pessoa varia desde o excessivamente "alto" e irritável, até ao triste e desesperado, passando por períodos de humor normal. Diferindo dos estados de humor normais de alegria e tristeza, os sintomas da perturbação bipolar podem ser graves e até colocar em risco a própria vida. No entanto, atendendo a que vários pintores, músicos e escritores têm vindo a sofrer da perturbação bipolar, o efeito desta doença tem sido por vezes banalizado e até considerado benéfico para a criatividade do artista. Na verdade, para os indivíduos afectados por esta doença, a mesma é extremamente angustiante e incapacitante.


A perturbação bipolar é a terceira doença de humor mais comum, a seguir à depressão major e à doença distímica. Este distúrbio afecta cerca de 1% dos adultos durante a sua vida. Tipicamente, os sintomas começam durante a adolescência, ou numa primeira fase da vida adulta, e continuam a ocorrer periodicamente ao longo da vida. Homens e mulheres têm igual probabilidade de desenvolver esta doença incapacitante. As consequências desta doença podem ser devastadoras e podem conduzir ao divórcio, desemprego, alcoolismo e abuso de drogas. A perturbação bipolar é geralmente agravada pela ingestão de álcool ou abuso de substâncias. Sem tratamento eficaz, a doença bipolar conduz ao suicídio em quase 20% dos casos.

Encontram-se disponíveis tratamentos eficientes que reduzem significativamente o sofrimento causado pela perturbação bipolar e que geralmente evitam as suas complicações devastadoras. As pessoas com esta doença podem sofrer desnecessariamente, sem tratamento adequado, durante anos ou até décadas. Para além disso, certos doentes não respondem a pelo menos um fármaco, enquanto que outros não respondem a vários. Por conseguinte, deve dar-se preferência a um tratamento combinado, dado que a associação de medicamentos diferentes com diferentes modos de acção pode ser mais eficiente sem aumentar o risco de efeitos secundários..

Sintomas e diagnóstico

A perturbação bipolar envolve ciclos de mania e depressão. Estes dois estados de humor podem ser considerados como os extremos opostos de um intervalo. Num dos extremos encontra-se a depressão grave; depois a depressão moderada; perturbações de humor ligeiras e breves (que muitas pessoas designam por "melancolia"); humor normal; hipomania e mania.

Algumas pessoas com perturbação bipolar não tratada apresentam episódios de depressão repetidos e apenas um episódio ocasional de hipomania (bipolar tipo II). No outro extremo, a mania pode ser o problema principal e a depressão pode ocorrer apenas ocasionalmente.

O reconhecimento dos diferentes estados do humor é essencial para que a pessoa com perturbação bipolar possa obter um tratamento eficaz e evitar as consequências negativas da doença (destruição das relações pessoais, perda de emprego e suicídio).


Entre os sinais e sintomas de mania incluem-se períodos de:
  • Sentimentos excessivamente "elevados" ou eufóricos
  • Energia aumentada, actividade, agitação, pensamentos rápidos e verborreia
  • Auto-estima exageradamente aumentada
  • Irritabilidade extrema e dificuldade de atenção
  • Necessidade reduzida de sono
  • Crença não realista nas suas capacidades e poderes
  • Capacidade de julgamento incaracteristicamente pobre
  • Período consistente de comportamento diferente do habitual
  • Aumento do estímulo sexual
  • Abuso de drogas, particularmente cocaína, álcool e medicamentos para dormir (benzodiazepinas)
  • Comportamento provocante, inoportuno, ou agressivo
  • Negação de que alguma coisa esteja errada


Entre os sinais e sintomas de depressão incluem-se períodos de:
  • Tristeza, ansiedade ou humor muito diminuído de forma persistente
  • Sentimento de desespero ou pessimismo
  • Sentimentos de culpa inapropriada, demérito, ou abandono
  • Perda de interesse ou prazer em actividades quotidianas, incluindo sexo
  • Perda de energia, sentimento de fadiga ou de estar a 'abrandar'
  • Dificuldade de pensamento, concentração, memória ou tomar decisões
  • Inquietação ou irritabilidade
  • Dificuldades em dormir, ou dormir excessivamente
  • Perda de apetite e peso, ou ganho de peso
  • Pensamentos repetidos de morte ou suicídio; tentativas de suicídio

Um episódio inicial da doença pode ser hipomania, na qual a pessoa demonstra um alto nível de energia, humor excessivo ou irritabilidade e comportamento impulsivo ou imprudente. A hipomania pode constituir um aspecto positivo para a pessoa que a apresenta, de modo que são a família e os amigos que aprendem a reconhecer as oscilações do humor, pois o indivíduo nega muitas vezes que alguma coisa esteja errada. Nos seus estádios iniciais, a perturbação bipolar pode surgir como um problema diverso de outras doenças mentais. Por exemplo, pode aparecer primeiro como abuso de drogas ou de álcool, ou mau desempenho escolar ou profissional. Se não for tratada, a perturbação bipolar tende a agravar e a pessoa apresenta episódios de mania e depressão clínicas francas.

A depressão e a mania graves podem ser acompanhadas por períodos de psicose. Os sintomas psicóticos incluem: alucinações (cheirar, observar, ou sentir coisas que de facto não existem) e delírios (falsas crenças baseadas no ilógico, apesar da existência de evidências em contrário).

Os sintomas da mania e da depressão podem estar presentes ao mesmo tempo (estado misto). Os sintomas incluem frequentemente agitação, problemas de sono, uma alteração significativa no apetite, psicose e ideias suicidas. Um humor deprimido acompanha a activação da mania. Os sintomas (mania, depressão, ou estado misto) estão muitas vezes limitados a diferentes episódios da doença. Estes episódios estão separados por períodos durante os quais a pessoa apresenta sintomas reduzidos ou mesmo ausentes. Alguns episódios podem durar 1 ano enquanto que outros podem demorar tão pouco como algumas horas, dependendo do doente. Com o tempo, os episódios tornam-se mais frequentes. Quando ocorrem quatro ou mais episódios num período de 12 meses, diz-se que a pessoa tem perturbação bipolar com ciclos rápidos. Na maioria dos doentes, o número de episódios que ocorrem ao longo da vida é aproximadamente de 8 a 10, mas em muitos casos este número é superior. Na perturbação bipolar com ciclos rápidos, podem surgir 4 ou mais episódios anualmente.

Causas de perturbação bipolar

A perturbação bipolar tende a ter um carácter familiar e pensa-se ser transmitida, em muitos casos, hereditariamente. Mais de dois terços das pessoas com perturbação bipolar têm pelo menos um parente próximo com a doença, ou com depressão major. Este facto sugere que os factores genéticos são importantes, e é provável que esta susceptibilidade à doença esteja relacionada com vários genes diferentes. No entanto, os genes específicos envolvidos não foram ainda identificados de forma inequívoca. Quando tal for conseguido, espera-se que seja possível delinear melhores estratégias terapêuticas e de prevenção dirigidas ao processo de base.

Sensibilização (kindling)

Pode ocorrer que o desenvolvimento da perturbação bipolar se deva a um processo de sensibilização (kindling). Esta ideia sugere que os primeiros episódios da doença são desencadeados por acontecimentos ao longo da vida, mas que cada episódio causa alterações no cérebro que tornam o próximo episódio mais provável e por fim os episódios podem ocorrer de forma espontânea. Este processo foi primeiro descrito como uma explicação para a epilepsia e pode explicar porque é que certos medicamentos antiepilépticos são também eficazes no tratamento da perturbação bipolar.

Neurotransmissores

Os neurotransmissores são as moléculas que permitem a transmissão dos impulsos nervosos dum nervo para o outro. Uma vez que se pensa que a transmissão nervosa deficiente pode ser uma causa de perturbação bipolar, é possível que estas moléculas estejam envolvidas. Como exemplos incluem-se a dopamina, a serotonina (5-HT; 5-hidroxitriptamina), acetilcolina, GABA e glutamato.

Tratamento

A maioria das pessoas com perturbação bipolar podem ser ajudadas com tratamento. Quase todas as pessoas (mesmo aquelas com as formas mais graves da doença) podem conseguir a estabilização das suas oscilações do humor. Uma vez que a perturbação bipolar é geralmente uma doença crónica e os sintomas recidivam muitas vezes, é altamente recomendado o tratamento profiláctico a longo-prazo.

Medicação

Diversas medicações são usadas para tratar a perturbação bipolar. O diagnóstico e tratamento devem ser sempre efectuados por um médico.

Psicoterapia

A psicoterapia, em associação com medicamentos, pode muitas vezes oferecer benefícios adicionais. Associada ao tratamento farmacológico, a psicoterapia é muitas vezes útil em proporcionar suporte, educação e orientação para o doente e respectiva família.


O papel da família e dos amigos

Tal como outras doenças graves, a perturbação bipolar representa uma sobrecarga importante para os cônjuges, outros familiares, amigos e superiores hierárquicos. Os familiares das pessoas com perturbação bipolar têm muitas vezes de lidar com problemas comportamentais graves (tais como despesas extravagantes) e com as consequências duradouras destes comportamentos. Se estes sintomas levam a que o indivíduo fique agressivo, ou incapaz de cumprir as suas responsabilidades, os familiares podem ficar zangados. Por este motivo, os familiares do doente sentem-se muitas vezes extremamente culpados, após o diagnóstico ter sido efectuado. Ficam preocupados por terem tido pensamentos de fúria ou de ódio e muitos questionam-se em que medida poderão ter causado a doença ao não oferecerem apoio ou compreensão ao doente, embora esta ideia não esteja correcta.

As pessoas com perturbação bipolar devem ser acompanhadas por um psiquiatra experiente durante o diagnóstico e tratamento da doença. Outros profissionais de doenças mentais, como psicólogos e psiquiatras sociais/sociólogos, podem dar assistência ao facultarem ao doente e à sua família outras abordagens terapêuticas.

Normalmente, as pessoas com perturbação bipolar não reconhecem o quanto estão doentes, ou atribuem os seus problemas a outras causas diferentes da doença mental. Necessitam muitas vezes de encorajamento por parte da família e amigos para procurarem tratamento; o médico de família pode fazer a primeira avaliação. Se a pessoa está no decurso dum episódio grave, pode ser necessário ser referenciada a um hospital para a sua própria protecção e para o tratamento necessário. Qualquer pessoa que está a considerar a hipótese de suicídio necessita da atenção imediata de um médico de família ou de um especialista em saúde mental. Com a ajuda e o tratamento apropriados é possível ultrapassar as tendências suicidas.

É importante que os doentes compreendam que a perturbação bipolar não irá desaparecer e como tal é necessário um tratamento contínuo para se poder controlar a doença. São também importantes o encorajamento e o apoio quando o doente inicia o tratamento, porque pode demorar algum tempo até que se decida qual o esquema de tratamento mais adequado a cada pessoa.

BIP-0608-001-IN
Data de Emissão: 26 Agosto 2008